Se me nasceram flores
Se me nasceram flores
nas pontas dos dedos
e eu as roí como
a uma pele mais seca
ou se as cortei, não perdoo
dentes ou tesoura que
não impediram o indecoro
:
mais estranho é
desconhecer assim o corpo
próprio e seus processos
e confundir pele
com pétala é afinal
tão menos grave
que sua possibilidade
:
mas vê, se certo é tudo
o que sucede e natural até,
como o metal subterrâneo
sob a pele, como descrer
do que morre? isto é,
o fluxo constante
do que ocorre.
Rute Mota
Wednesday, July 13, 2011
Monday, June 27, 2011
e ainda a sul
Dedicatória
ver mar e ver terra ter a roupa decorada
o cinza cobrindo o negro e depois
depois só o negro apetecer o negro
eu acho que vestias assim
e faço bonecos espreito outras ruas
mas ninguém leva a tua cara nem podia
Então penso onde foi mesmo
em que língua envergonhava a gente?
dois ou três nomes de terras
todas elas nossas conhecidas
terras conhecidas pelos dois mas
com mais cores a cor toda atrapalhada
devorar uma sandes ao jantar
acabar com o queijo
E logo umas canções que memorizem
digo guitarras tocadas como pedras
lagos estradas caminhos comidos
apanhar e guardar essas luzinhas todas
boca aberta e passo abananado
querendo rir e ser gentil
Hugo Milhanas Machado
fazer download da revista aqui
por Carmen
Ficam combinadas histórias para contarver mar e ver terra ter a roupa decorada
o cinza cobrindo o negro e depois
depois só o negro apetecer o negro
eu acho que vestias assim
e faço bonecos espreito outras ruas
mas ninguém leva a tua cara nem podia
Então penso onde foi mesmo
em que língua envergonhava a gente?
dois ou três nomes de terras
todas elas nossas conhecidas
terras conhecidas pelos dois mas
com mais cores a cor toda atrapalhada
devorar uma sandes ao jantar
acabar com o queijo
E logo umas canções que memorizem
digo guitarras tocadas como pedras
lagos estradas caminhos comidos
apanhar e guardar essas luzinhas todas
boca aberta e passo abananado
querendo rir e ser gentil
Hugo Milhanas Machado
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Hugo Milhanas Machado,
numero 2
Thursday, June 16, 2011
a sul
O mercúrio de Van Sweetens
Caro Zerrel,
- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro. O mercúrio chegou aos 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Disse-me que antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se e a falar mais. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente, os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.
Sinto que o meu termómetro vai ser um tremendo sucesso.
Do sempre seu,
T. Edison
Pedro A. M. Amaral
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Caro Zerrel,
- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro. O mercúrio chegou aos 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Disse-me que antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se e a falar mais. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente, os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.
Sinto que o meu termómetro vai ser um tremendo sucesso.
Do sempre seu,
T. Edison
Pedro A. M. Amaral
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numero 2,
Pedro A. M. Amaral
Monday, May 30, 2011
Et Voilá!
Aqui está o segundo número da revista A SUL DE NENHUM NORTE.
Esperamos que vos agrade.
fazer download aqui.

Esperamos que vos agrade.
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Friday, May 20, 2011
a sul
os dias são feitos de noites intermináveis
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mãos rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração
- Ana C. -
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mãos rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração
- Ana C. -
Thursday, May 19, 2011
a sul
Definição de desconhecido
Pessoa que não é membro
de um grupo: um visitante,
convidado, ou o seio
que roça no teu braço
no metro. Pessoa
com quem não tiveste
nenhum contacto mas que tirou
a tua cadeira de baloiço
da berma
e se enrosca nela
e fecha os olhos.
Pessoa agora atrás
de ti na fila, à espera
de um copo de água,
ou de whiskey, de elixir.
Pessoa a ligar-se online
no mesmo segundo
do Home Depot em LIma.
Ou à procura do Dalai Lama.
Pessoa nem cúmplice nem parte
duma decisão, edital, et cetera,
mas que comeu
do mesmo garfo
na pizzaria
e beijou a tua irmã mais tresloucada
no fim de ano. Pessoa designada
para alimentar o tigre no zoo
onde tu uma vez
puseste a tua mão
na palma da mão
do pai de outra pessoa.
- Idra Novey -
Pessoa que não é membro
de um grupo: um visitante,
convidado, ou o seio
que roça no teu braço
no metro. Pessoa
com quem não tiveste
nenhum contacto mas que tirou
a tua cadeira de baloiço
da berma
e se enrosca nela
e fecha os olhos.
Pessoa agora atrás
de ti na fila, à espera
de um copo de água,
ou de whiskey, de elixir.
Pessoa a ligar-se online
no mesmo segundo
do Home Depot em LIma.
Ou à procura do Dalai Lama.
Pessoa nem cúmplice nem parte
duma decisão, edital, et cetera,
mas que comeu
do mesmo garfo
na pizzaria
e beijou a tua irmã mais tresloucada
no fim de ano. Pessoa designada
para alimentar o tigre no zoo
onde tu uma vez
puseste a tua mão
na palma da mão
do pai de outra pessoa.
- Idra Novey -
Wednesday, May 4, 2011
a sul
(...)
Mas há gente que, por ter uma educação mais esmerada ou apenas porque as circunstâncias da vida assim o determinaram, acha que está acima disto. Precisam de algo que lhes titile a sofisticação. Que os faça sentir que pertencem a um grupo. E não a um grupo qualquer, mas a um grupo de gente que, como eles, tenha gosto apurado, tenha opiniões, saiba apreciar as artes e não ignore que sair de casa sem um saco a tiracolo e um livro de Boris Vian no bolso é como estar nu.
Precisam de ser godás.
E o que vem a ser um godá?
É muito simples.
Comecemos pela pronúncia. Lê-se “gódá” e não “gudá” ou “gôdá” ou qualquer outra variante. Vem de Godard, realizador francês que, não sendo ele um godá propriamente dito, é um dos autores que, para qualquer godá que se preze, fica sempre bem citar e dizer que se conhece o seu trabalho e se gosta muito.
O termo é de minha autoria, mas o conceito já existia. A única coisa que faltava era alguém perceber que não é apenas uma particularidade comportamental, mas toda uma filosofia de vida.
(...)
- Renato Carreira -
Mas há gente que, por ter uma educação mais esmerada ou apenas porque as circunstâncias da vida assim o determinaram, acha que está acima disto. Precisam de algo que lhes titile a sofisticação. Que os faça sentir que pertencem a um grupo. E não a um grupo qualquer, mas a um grupo de gente que, como eles, tenha gosto apurado, tenha opiniões, saiba apreciar as artes e não ignore que sair de casa sem um saco a tiracolo e um livro de Boris Vian no bolso é como estar nu.
Precisam de ser godás.
E o que vem a ser um godá?
É muito simples.
Comecemos pela pronúncia. Lê-se “gódá” e não “gudá” ou “gôdá” ou qualquer outra variante. Vem de Godard, realizador francês que, não sendo ele um godá propriamente dito, é um dos autores que, para qualquer godá que se preze, fica sempre bem citar e dizer que se conhece o seu trabalho e se gosta muito.
O termo é de minha autoria, mas o conceito já existia. A única coisa que faltava era alguém perceber que não é apenas uma particularidade comportamental, mas toda uma filosofia de vida.
(...)
- Renato Carreira -
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