Sunday, January 22, 2012

Wednesday, August 31, 2011

Ahoy!

Aqui está o terceiro número da revista A SUL DE NENHUM NORTE.
Esperamos que vos agrade.
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Wednesday, July 13, 2011

a sul

Se me nasceram flores
Se me nasceram flores
nas pontas dos dedos
e eu as roí como
a uma pele mais seca
ou se as cortei, não perdoo
dentes ou tesoura que
não impediram o indecoro
:
mais estranho é
desconhecer assim o corpo
próprio e seus processos
e confundir pele
com pétala é afinal
tão menos grave
que sua possibilidade
:
mas vê, se certo é tudo
o que sucede e natural até,
como o metal subterrâneo
sob a pele, como descrer
do que morre? isto é,
o fluxo constante
do que ocorre.


Rute Mota

Monday, June 27, 2011

e ainda a sul

Dedicatória
por Carmen
Ficam combinadas histórias para contar
ver mar e ver terra ter a roupa decorada
o cinza cobrindo o negro e depois
depois só o negro apetecer o negro
eu acho que vestias assim
e faço bonecos espreito outras ruas
mas ninguém leva a tua cara nem podia

Então penso onde foi mesmo
em que língua envergonhava a gente?
dois ou três nomes de terras
todas elas nossas conhecidas
terras conhecidas pelos dois mas
com mais cores a cor toda atrapalhada
devorar uma sandes ao jantar
acabar com o queijo

E logo umas canções que memorizem
digo guitarras tocadas como pedras
lagos estradas caminhos comidos
apanhar e guardar essas luzinhas todas
boca aberta e passo abananado
querendo rir e ser gentil


Hugo Milhanas Machado


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Thursday, June 16, 2011

a sul

O mercúrio de Van Sweetens


Caro Zerrel,

- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro. O mercúrio chegou aos 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Disse-me que antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se e a falar mais. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente, os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.
Sinto que o meu termómetro vai ser um tremendo sucesso.


Do sempre seu,
T. Edison


Pedro A. M. Amaral


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Monday, May 30, 2011

Et Voilá!

Aqui está o segundo número da revista A SUL DE NENHUM NORTE.
Esperamos que vos agrade.
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Friday, May 20, 2011

a sul

os dias são feitos de noites intermináveis
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mãos rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração

- Ana C. -

Thursday, May 19, 2011

a sul

Definição de desconhecido

Pessoa que não é membro
de um grupo: um visitante,
convidado, ou o seio
que roça no teu braço
no metro. Pessoa
com quem não tiveste
nenhum contacto mas que tirou
a tua cadeira de baloiço
da berma
e se enrosca nela
e fecha os olhos.
Pessoa agora atrás
de ti na fila, à espera
de um copo de água,
ou de whiskey, de elixir.
Pessoa a ligar-se online
no mesmo segundo
do Home Depot em LIma.
Ou à procura do Dalai Lama.
Pessoa nem cúmplice nem parte
duma decisão, edital, et cetera,
mas que comeu
do mesmo garfo
na pizzaria
e beijou a tua irmã mais tresloucada
no fim de ano. Pessoa designada
para alimentar o tigre no zoo
onde tu uma vez
puseste a tua mão
na palma da mão
do pai de outra pessoa.

- Idra Novey -

Wednesday, May 4, 2011

a sul

(...)
Mas há gente que, por ter uma educação mais esmerada ou apenas porque as circunstâncias da vida assim o determinaram, acha que está acima disto. Precisam de algo que lhes titile a sofisticação. Que os faça sentir que pertencem a um grupo. E não a um grupo qualquer, mas a um grupo de gente que, como eles, tenha gosto apurado, tenha opiniões, saiba apreciar as artes e não ignore que sair de casa sem um saco a tiracolo e um livro de Boris Vian no bolso é como estar nu.
Precisam de ser godás.
E o que vem a ser um godá?
É muito simples.
Comecemos pela pronúncia. Lê-se “gódá” e não “gudá” ou “gôdá” ou qualquer outra variante. Vem de Godard, realizador francês que, não sendo ele um godá propriamente dito, é um dos autores que, para qualquer godá que se preze, fica sempre bem citar e dizer que se conhece o seu trabalho e se gosta muito.
O termo é de minha autoria, mas o conceito já existia. A única coisa que faltava era alguém perceber que não é apenas uma particularidade comportamental, mas toda uma filosofia de vida.
(...)


- Renato Carreira -

Tuesday, April 26, 2011

A sul

Percorri o bairro, cercado do que imagino como representação da «toute Lisbonne»; é a minha costela Crumb. Não vi, não reconheci, escritores entre a audiência; julgo ter compreendido por que Gonçalo teve de os inventar; vi sobrinhas, tias e finalistas estucadas com botox, possíveis locatárias dos condomínios donde serão despejados o senhor Valéry, o senhor Henri, o senhor Juarroz, o senhor Brecht, o senhor Kraus, o senhor Calvino, o senhor Walser, sem o senhor Swendenborg ter tido tempo para se entregar às «investigações geométricas». Quando bebia absinto, em Coimbra, não me lembro se alguma vez tive o cuidado de «nunca misturar o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto»; sinto muito, senhor Henri.





Jorge Fallorca

Thursday, April 14, 2011

a sul

(da divisão dos despojos)


o que não foi destruído ficou em silêncio
sobre a mesa mas reparem: só o que perece
não dói. a dificuldade é incinerar o que fica
o passado é pouco combustível mas os dedos
como os nós também se cortam. mas como
dividir o saque que é inteiro onde rasgar
em que linha imaginária se ainda hoje
todos os decretos foram decretados nulos.

- Pedro Jordão -

Tuesday, April 12, 2011

a sul

(...)
Sim, por muitos e bons anos
Até que a incerteza separe
A cal da parede,
Até que comecem a arder,
Por excesso de exposição,
Os móveis que o sol visita pela janela.


A madeira é duma fragilidade
Metódica e paciente.
São de madeira os punhos
Elevados perante as seduções.




- Rui Almeida -

Friday, April 8, 2011

a sul

25 Megapixels


Já verifiquei as sombras mais de muitas vezes - a luz está esquiva dentro das nuvens e digo baixinho para a máquina fotográfica encostada à minha barriga: “Sabes, acho que hoje ninguém subirá a encosta até aqui”. Ali ao lado, o Júlio apressa-se a alinhar as fichas vermelhas dentro da caixa enferrujada e espreita a estrada pelo canto do olho. Não quer que os seus homens se apercebam que está preocupado com as nuvens e inventa tarefas para os ocupar: um que abra o motor e verifique o óleo, o outro que percorra as tábuas gastas de madeira à procura de algum prego solto, vamos, vamos. E finge-se atento a esses movimentos, enquanto se encosta à cabeça amarelo-muito-gasto do cavalo de boca aberta.
(...)


- Ângela M. -

1 de cada sul por dia.

Tatiana Pequeno nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1979. Publicou, em 2010, seu primeiro livro de poemas, réplica das urtigas. É professora de literaturas brasileira e portuguesa, tendo defendido recentemente tese de doutoramento sobre Maria Gabriela Llansol. Ouve desde sempre muitas canções e muitas reverberações do mundo, por isso costuma comover-se até hoje com a longa introdução de Cortez the killer do Neil Young e as aparentes dissonâncias de toda uma geração que sabia do que o Loveless, do My Bloody Valentine, tratava.

Tiago Gomes nasceu em Lisboa em 1971. É poeta e, em edição de autor, editou dois livros: Caixa Negra de Avião Desviado por Ataque Terrorista e Homem Vago em Cinzento (1995). Seguiram-se Brincadeiras com Cianeto (Edições Mortas, 1998), Viola-me Eléctrica (Fenda, 1998) e Antologia Auto-Ajuda (Ed. Mariposa Azual). Foi radialista na Voxx, comentador no programa de televisão Prazer dos Diabos. É vocalista dos Campos Blue Moves, Inspectores, Agência de Viagens e On The Road. Foi fundador da galeria ZDB. É director, produtor e editor da revista de arte Bíblia, que dirige há 14 anos. Produz os projectos musicais Furacão Sereno, On The Road e Inspectores.

Pedro Santo Tirso, tem 33 anos, idade de Cristo, é lisboeta, gosta do seu nome, que sempre considerou uma boa combinação de sagrado e profano. Talvez por isso tenha dado em professor. Tem mulher e filho que ama. Gosta de beber vinho e de ler.

Wednesday, April 6, 2011

a sul

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Pumping Station 1.1, João Rios
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